Boa noite @Carlos Gregol
Sou médico há praticamente 10 anos, também filho de pais não médicos. Inclusive vim de uma situação financeira muito vulnerável e hoje tenho certo estabilidade e consigo ajudar meus pais financeiramente. Vou por partes nas suas perguntas:
- Período pós faculdade: nos primeiros dias tive dificuldade de achar plantões e era um medo/receio não conseguir. Alguns colegas nos primeiros dias já estavam trabalhando e eu não, mas aos poucos os plantões foram surgindo (na época no interior de Goiás) e esses próprios colegas iam repassando plantões pra mim. Eu ainda tinha uma preocupação porque 3 meses depois (em março) me mudaria pra Brasília pra fazer Residência e nem carro eu tinha. Mas rapidamente consegui o dinheiro da entrada e comprei o carro.
- Sobre a Residência: preferi ir direto e não me arrependo, apesar do caminho que trilhei. Fiz primeiro Cirurgia Geral, depois abandonei a Residência de Coloprocto, titulei em Terapia Intensiva (não fiz Residência, só a prova de título) e hoje trabalho na maior parte do tempo como intensivista. A trajetória na Medicina não é linear, mas aos poucos as coisas vão se ajustando. Meu conselho, até pensando no número crescente de escolas médicas e na má formação dos profissionais: faça Residência se possível, isso vai ajudar no futuro.
- Os grandes centros estão saturados? Sim, estão. Se você for especialista isso será um diferencial pra conseguir espaço. Trabalho hoje no principal hospital particular de Brasília e tem fila de espera de médicos querendo entrar na escala de plantões. Já estão dando preferência pra quem tem RQE e com o passar do tempo isso será cada vez mais relevante.
- Margem salarial: é difícil falar, mas o especialista geralmente ganha mais. Minha realidade é um pouco diferente porque trabalho em um excelente hospital. Mas aqui o valor bruto do plantão por 12h é R$ 2550,00 (minha empresa desconta 13% desse valor, mas ainda é muito bom comparado com a média). Em geral os plantões em Brasília pra intensivista saem na média de R$1800,00 (alguns lugares pagam adicional pra quem tem RQE). Aí vai da sua energia pra administrar os plantões. Hoje trabalho umas 90-100h por semana, mas sei que em um futuro próximo não terei mais energia e estrutura física/mental pra isso. Por isso poupo o máximo que dá e invisto meu dinheiro com os conhecimentos que venho adquirindo na AUVP.
Ainda sobre o valor dos plantões: é muito variável. Tem cidade aqui perto, inclusive Goiânia onde nasci/cresci, que paga menos de mil reais por um plantão de 12h. Absurdo? Sim, mas vai piorar ainda mais, infelizmente. Por isso proteja seu patrimônio, invista com sabedoria, gaste menos do que ganha e seja feliz.
- Sobre a escolha da especialidade: no primeiro ano decidi que faria Cirurgia e desde o quarto ano da faculdade decidi por Coloprocto. Havia um pouco de romantismo. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas por vários motivos, incluindo conveniência e necessidade de ganhar dinheiro rápido pra ajudar meus pais, fui pra Terapia Intensiva.
Tente escolher uma área que reúna afinidade e dinheiro. Mas não sofra, a Medicina é muito ampla, você pode trocar de especialidade no decorrer do caminho (como eu fiz), pode seguir um rumo totalmente diferente ou ser bem sucedido na primeira escolha que fizer.
- Pra finalizar deixo um conselho de Asklepios, o deus romano da Medicina e da cura:
"Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão e, sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estoica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido; se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar a luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhaste até ao final; se anseias conhecer o Homem e penetrar na trágica grandeza de seu destino, então... TORNA-TE MÉDICO, MEU FILHO".