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Hoje é o Dia Mundial da Sociedade da Informação, e a UIT escolheu pra 2026 o tema "Linhas de vida digitais: fortalecendo a resiliência num mundo conectado". A escolha da palavra não é à toa. Uma linha de vida é, por definição, algo que não pode falhar. A data nasceu de uma cúpula da ONU, num tempo em que o problema da tecnologia ainda era de acesso: conectar, distribuir, levar informação pra onde ela não chegava. Boa parte desse problema foi resolvida, e o que sobrou é de outra natureza. O futuro da sociedade da informação não pertence mais a quem produz a tecnologia, mas a quem entende quais partes dela não podem falhar.

Na sociedade da informação que de fato construímos, o software deixou de ser uma ferramenta de produtividade pra se tornar a infraestrutura da vida cotidiana. Os pagamentos, a saúde, a educação, a identidade, o governo e o trabalho passam hoje por camadas digitais que rodam em segundo plano, quase invisíveis. E essa invisibilidade mudou o impacto de suas falhas. Quando essa infraestrutura quebra, o sistema não cai fazendo barulho. Ele continua rodando, mas respondendo errado, negando um direito ou embutindo um viés sem que nada no comportamento dele denuncie o problema. E a IA, que hoje escreve boa parte desse software, só aumenta a chance da falha passar em silêncio.

A pergunta que sempre ouço é se a IA vai substituir programadores. Não é essa a que me preocupa. Produzimos hoje mais software do que conseguimos auditar, e o código gerado por máquina é especialmente bom em parecer correto. Addy Osmani chamou isso de dívida de compreensão: o custo de produzir despencou pra perto de zero, mas o custo de entender o que foi produzido continua o mesmo, e a distância entre os dois não para de crescer. Osmani enxerga o problema dentro do código, como uma questão de manutenção e de engenharia. Só que esse software não é mais só código. É a infraestrutura da nossa vida. A dívida de compreensão deixou de ser técnica e virou cívica, e boa parte da indústria segue chamando esse abismo de progresso.

Os anos que virão, os anos dos criadores silenciosos, talvez sejam mais curtos do que imagino. Neles, o nosso trabalho vai passar de produzir mais informação e mais software pra reconhecer a criticidade do que já existe: distinguir o que precisa ser determinístico, auditável e reversível, do que pode falhar sem causar danos graves, e do que jamais deveria falhar em silêncio. Só que esse julgamento ainda não é o cargo de ninguém. Terceirizamos para o software quase todas as nossas decisões cotidianas sem nos preocuparmos em verificar o que está falhando sem alerta. E agora terceirizamos também a produção desse mesmo software, sem capacidade de verificar o que está sendo entregue.

Já que o código virou uma commodity, é o nosso discernimento que precisa se tornar a infraestrutura. A ideia de sociedade da informação tem que ser reescrita: o que a define não é mais o volume que produzimos, mas quem ainda entende como nasce aquilo de que dependemos. A UIT pede resiliência este ano, e uma linha de vida digital só é resiliente enquanto alguém for capaz de dizer o que nela não pode falhar. Sem isso, num 17 de maio qualquer, vamos acabar celebrando uma sociedade da informação inteiramente produzida por IA, e que ninguém mais entende.

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De fato, o atrito para entender oque foi feito continua, e a mesma sensacao de quando se revisa o codigo de um outro desenvolvedor da equipe, voce precisa entender o por que foi feito daquela forma, pois no desenvolvimento tem-se varias formas de fazer a mesma coisa.

O trabalho de desenvolvedor nunca vai acabar, mas ele se tornou mais produtivo, e mais produtividade significa menos empregados pois uma quantia menor hoje produz o mesmo que uma quantia maior produzia anos atras.

O codigo de fato hoje e uma commodity, mas um desenvolvedor e feito apenas de codigo? Nao, nos fazemos muito mais do que isto, o codigo e o trabalho duro mas alguem precisa definir como e oque sera feito, qual infra usar, GCP, AWS, Azure? Por que da escolha? Qual tecnologia usar no backend, ruby, go, nest, por que? E o frontend, sera como? Qual tecnologia, qual design? E se algo der errado, vai jogar a culpa na IA? Ou precisa-se de um desenvolvedor para ser responsavel por tudo isto?

Se voce refletir, vai ver que codigo e um pequena parte daquilo que fazemos, antes era uma parte que tomava tempo, agora nao mais, sobra-se mais tempo para fazer outras coisas.

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