Jump to content

Recommended Posts

Postado

Pessoal, boa tarde.

Gostaria de uma ajuda de quem já tem seu próprio negócio ou de quem tiver uma noção mais apurada do assunto.


Atualmente trabalho como gerente Select no Santander e quero ajudar um amigo com a parte da gestão financeira da empresa que ele está abrindo, ele e o sócio - que é quem faz o serviços da borracharia -, vão cuidar da parte de gestão operacional e logística, e eu gostaria de ajudar na parte financeira do negócio, caixa, questão de tributação também acho que seria viável, enfim, gostaria de aproveitar essa oportunidade para ter experiência na gestão de uma empresa vide que eu penso em abrir meu próprio negócio no futuro.

Então queria pedir uma ajuda sobre por onde eu começaria o plano de ação. Eu tenho uma noção breve de finanças corporativas pois estudei há um bom tempo já, porém gostaria de uma visão mais geral de quem já toca e tocou uma empresa do zero.

Detalhe: ele é de outro estado portanto eu estaria ajudando de forma remota, não sei se isso atrapalha muito mas acho que não. 

Postado

Já toquei empresa do zero e hoje sou advisor em algumas, então vou começar pelo que costuma dar mais trabalho.

Antes de fluxo de caixa e de tributação, defina em que condição você entra: sócio com participação no contrato social, prestador com contrato e honorário definido, ou ajuda informal de amigo. Cada uma tem consequências diferentes lá na frente. A ambiguidade não aparece de início, mas quando o negócio começa a dar dinheiro ou prejuízo, a conversa vira sobre relação pessoal em vez de números.

Outra coisa, você é funcionário de banco. Precisa ver se o código de conduta do Santander trata de conflito de interesses e de participação em outras empresas, porque normalmente isso exige uma declaração e, em alguns casos, aprovação prévia. Principalmente para cargo de administrador no contrato social. Consulta logo o compliance interno antes de assinar qualquer coisa. Vale também manter a conta PJ da borracharia fora da sua agência e da sua carteira, porque isso é o tipo de coisa que ninguém questiona até o dia em que questiona.

Feito isso, eu começaria pelo básico. Regrinha chata mas que ajuda demais: conta PJ aberta antes do primeiro faturamento, pró-labore fixo pros dois sócios definido no papel desde a assinatura, mesmo que seja um valor baixo e proibição de tirar dinheiro do caixa pra despesas pessoais. O ponto é que borracharias são negócios de recebimento em dinheiro e Pix. O risco do caixa virar extensão do bolso do dono é grande. Se você resolver só isso, já justificou sua presença.

Sobre a tributação, como serão dois sócios, esquece MEI e vamos de ME no Simples Nacional. Mas tem um problema a resolver... borracharia mistura serviço com venda de mercadoria. O conserto, o remendo e a montagem entram como serviço, com ISS municipal. A venda de pneus, câmaras, válvulas, etc... como comércio, com ICMS. São CNAEs e anexos diferentes do Simples e a receita precisa ser segregada na apuração. Não tente resolver isso remotamente sozinho: contrate um contador da cidade dele, que conheça a prefeitura local, o alvará, o bombeiro e as exigências de destinação de pneus inservíveis. A fiscalização ambiental adora pegar borracharia desprevenida.

Antes do DRE, começa pelo fluxo de caixa semanal projetado pra 10-15 semanas. Levanta o custo fixo mensal inteiro (aluguel, energia, água, salário, encargos, pró-labore, contador, internet, seguro) e calcula quantos serviços por dia vocês precisam pra pagar essa conta. Esse é o número que o sócio dele precisa ter na cabeça todo dia de manhã. A partir dele você discute preços para a realidade dele e não comparando com o concorrente.

Separe a margem de serviço da margem de produto desde o começo. Serviço tem margem alta e não imobiliza capital, já pneu tem margem baixa e o dinheiro fica parado na prateleira. Vi mais borracharia e autopeças quebrarem por estoque comprado no impulso do que por falta de cliente. Acompanhe o giro por item e resista à promoção do fornecedor que geralmente só serve pra transferir estoque parado dele pra vocês.

Outro ponto importante é o prazo de recebimento. O cartão de crédito cai em 30 dias, parcelado é pior ainda e só ganha da antecipação. Já o fornecedor quer receber em 7, 14 dias. Essa diferença é o capital de giro que a maioria não imagina que vai precisar. Taxa de maquininha se negocia no início (mas esse é um assunto que você domina melhor que 99% dos donos de borracharia) e antecipação se trata como crédito ultra caro. Só deve ser aceitável em emergências e não pode jamais virar um hábito. Em cima de tudo isso, reserva de caixa equivalente a três meses de custo fixo, que tem que ser formada antes de sequer sonhar com qualquer retirada de lucro.

Sobre ser remoto, não creio que atrapalha na sua parte. Qualquer ERP simples tipo Conta Azul, ou até uma planilha bem feita nos primeiros meses já resolve o lado mais crítico. O que não dá pra ser remoto é a contagem de estoque e conferência física de caixa, então precisa combinar uma rotina. Eu cobraria fechamento diário lançado por ele no fim do expediente, com conferência sua no fim da semana e fechamento do mês com um Teams/Zoom/Meet de meia hora, quarenta minutos. Eu trataria pelo menos três indicadores: faturamento por linha, margem e saldo projetado das próximas semanas. Digo isso porque se o lançamento diário não acontecer, você vai terminar tendo que escavar nota fiscal e aí a distância começa a atrapalhar bastante.

Uma última coisa que vai ter ajudar bastante mais adiante: acordo de sócios entre os dois, escrito, com regra de retirada, de entrada de novo sócio, de saída e de morte. Preserve sua paz.

Espero ter ajudado.

  • Brabo 2
  • Aí cê deu aula... 2
×
×
  • Criar novo...