Bom dia! Acho que, antes de pensar em mudar de carreira, vale a pena fazer uma reflexão sobre a realidade da medicina hoje.
Vou começar com uma frase que pode parecer dura, mas que eu mesmo já vivi, todo médico acha que a vida é um morango 🍓, quando está se formando. A faculdade passa a impressão de que, depois do CRM, a vida estará resolvida. Boa renda, estabilidade e qualidade de vida. Só que o mercado de hoje é outro.
E a culpa nem é só nossa. A faculdade ensina medicina, mas praticamente não fala de carreira, mercado, negociação, empreendedorismo, gestão financeira ou planejamento profissional. A maioria sai achando que basta ser um bom médico que o resto acontece naturalmente.
Pela forma como você escreveu, me parece que o problema não é apenas o dinheiro. O que vejo é uma frustração entre a expectativa que você criou da profissão e a realidade que encontrou.
A medicina continua sendo uma excelente profissão. Eu acredito nisso. Mas ela mudou muito. Hoje temos muito mais faculdades, muito mais médicos, maior concorrência, pressão das operadoras, vínculos PJ e uma remuneração que, em várias áreas, perdeu poder de compra. O diploma continua abrindo portas, mas ele não garante mais, sozinho, o padrão de vida que muita gente imaginava durante a faculdade.
Outra frase que me chamou atenção foi quando você disse que não acha que trabalhar vai contribuir muito para sua vida.
Eu tomaria cuidado com essa conclusão.
Você tem menos de dois anos de formado. Nessa fase, o trabalho não serve apenas para colocar dinheiro no bolso. É nele que você constrói experiência, reputação, networking e descobre qual caminho realmente faz sentido para você. Isso vale muito.
Na minha opinião, hoje seu maior patrimônio nem é o dinheiro investido. É sua capacidade de gerar renda. Você tem 27 anos. Investir em formação, reputação e posicionamento profissional provavelmente vai gerar um retorno muito maior do que qualquer aplicação financeira nesse momento.
Também evitaria comparar sua situação com médicos que levaram 10 ou 15 anos para construir consultório, nome ou posição de liderança. Você ainda está começando.
E vou ser sincero, não conheço muitas profissões em que alguém, com menos de dois anos de formado, consiga escolher exatamente quanto quer trabalhar, ganhar muito, ter qualidade de vida e ainda construir patrimônio ao mesmo tempo. A medicina também tem sua fase de construção.
Outro ponto que me chamou atenção foi você ter comprado um apartamento e ficado com apenas R$ 3 mil de reserva. Isso me preocuparia mais do que trabalhar oito ou doze horas por dia. Como PJ, reserva financeira compra tranquilidade. Ela permite dizer “não” para um plantão ruim e tomar decisões pensando no longo prazo.
Tenho a impressão de que você está tentando responder duas perguntas diferentes ao mesmo tempo.
Como melhorar minha qualidade de vida?
Como construir uma carreira sólida?
Nem sempre elas têm a mesma resposta.
A porta de urgência é uma excelente escola. Aprendi muito nela. Mas dificilmente será o destino final da maioria dos médicos. Ela é uma etapa da carreira, não necessariamente o lugar onde você vai querer estar pelos próximos 30 anos.
Talvez a pergunta mais importante seja outra, onde você quer estar aos 35 anos?
Quer consultório? Especialidade? Gestão? Concurso? Empreender? Docência?
Quando você responde isso, fica muito mais fácil entender quais sacrifícios fazem sentido fazer agora.
Outra mudança de mentalidade que considero importante é parar de enxergar a medicina apenas como uma profissão e começar a enxergá-la como uma carreira. Em muitos aspectos, você precisa administrar sua vida profissional como uma empresa. Precisa cuidar da sua marca, da sua reputação, dos seus relacionamentos, da sua formação e das suas finanças.
E acho que o primeiro passo você já deu ao entrar na AUVP.
Para mim, a maior lição do curso nem é aprender a escolher uma ação ou um ETF. É entender que dinheiro não aceita desaforo.
O fato de ser médico não significa que você pode gastar sem planejamento porque sempre haverá um plantão para cobrir a conta. Vejo muitos colegas caindo nessa armadilha. Ganham bem, mas gastam melhor ainda.
Dinheiro precisa ser respeitado.
Patrimônio não é construído apenas aumentando renda. É construído aumentando sua capacidade de gerar renda, controlando o padrão de vida e investindo de forma consistente durante muitos anos.
No fim, acho que o maior erro é acreditar que a medicina deixou de ser uma boa profissão. Não acho isso.
Ela continua oferecendo oportunidades extraordinárias.
O que mudou é que elas deixaram de ser automáticas.
Hoje elas precisam ser construídas.
E, quanto mais cedo você entender isso, menos frustrado vai ficar e melhores serão as decisões que tomar ao longo da carreira.